Sexta-feira, 27 de Abril de 2007
Em Timor, por vezes, chora-se sem saber porque

Por vezes em Timor é difícil segurar as emoções e os sentimentos que nos assaltam. Aconteceu comigo quando cheguei cá e fui confrontado, logo à saída do aeroporto de Díli, com a ausência completa de condições de vida dos refugiados que vivem nos seus campos. Posso confessar, agora que já passaram seis meses, que fiquei bastante perturbado como que vi, fazendo um enorme esforço para não chorar perante esse cenário bastante triste do ponto de vista humano.

Porém, ao contrario do possam pensar, provavelmente por influencia de alguma comunicação social, nem só de tristeza, pobreza, confrontos e instabilidade vive o povo de Timor Leste. Timor é muito rico, e rico de uma riqueza que muito de nós portugueses, principalmente as gerações mais vindouras como a minha, por vezes já não damos importância. Timor Leste tem uma riqueza cultural e religiosa incalculável. E isso, meus amigos, não se compra, constrói-se. Constrói-se da maneira mais linda possível. Transmitindo de geração em geração, tudo o que os nossos antepassados nos deixaram, para que os novos filhos da nação saibam dar valor àquilo que os seus antepassados construíram ao longo dos séculos. E em Timor Leste esse trabalho é feito dessa forma, de geração em geração, ininterruptamente.

Foi por isso, que durante este fim-de-semana, na jornada nacional jovem Pascoa Jovem 2007, em Los Palos, participei num encontro de jovens que nunca mais vou esquecerei durante os dias em que andar neste mundo. Não por ser um encontro de jovens (cerca de 12 mil), nem por ser organizado pela Igreja, já que, felizmente ou infelizmente, conforme as circunstancias, já tenho muitos encontros de jovens no currículo.

O que me impressionou, e que me deixou outra vez de lágrima ao canto do olho, foi a forma como este povo, desde os mais jovens até aos mais velhos, mostrou a quem esteve presente a sua riqueza cultural através de manifestações de fé.

O referido encontro teve por base a entrega da Cruz Jovem à paróquia de Maubisse. A Cruz Jovem é uma cruz que durante um ano está entregue a uma paróquia de Timor. No final desse período, há, durante uma semana, uma jornada com conferências, catequeses e reflexões para os jovens de todo o Pais.

Eu só tive o prazer de participar no fim-de-semana final, em que houve a passagem da Cruz Jovem da paróquia de Los Palos (Diocese de Baucau) para a paroquia de Maubisse (Diocese de Díli).

Como mote para a entrega da cruz, caminhou-se 14Kms até ao limite da paroquia. Aí realizou-se uma noite cultural (mostrando sobretudo a cultura Fataluku, da zona de Los Palos), com danças e cantares autóctones e não só, pela noite dentro. É para vejam a resistência do povo timorense, quando algumas pessoas presentes (sobretudo os poucos internacionais presentes) suspiraram por descanso, o povo timorense presente (desde os mais velhos até ao mais novos) preparava-se para dançar pela noite adentro. Primeiro foi a dança do lafaek (crocodilo), um forte gesto simbólico com o objectivo de quebrar a possível fronteira cultural existente entre Loro’Mono (a parte mais ocidental de Timor-Leste)e Loro’Sae (a mais oriental de Timor Leste). Depois, houve uma dança tradicional da cultura fataluku, simplesmente lindo dada a intensidade e sincronização com que foi realizada pelas gentes de Los Palos e arredores. Por fim, foi concerto e baile ao longo de toda a noite.

No outro dia de manha houve uma missa presidida pelo Núncio Apostólico de Timor Leste. Essa missa foi fortemente enriquecida por danças e cânticos culturais.

No fim da Eucaristia, que começou às10h e terminou por volta das 12h.30m, houve então a entrega da Cruz à paróquia de Maubisse. Essa entrega realizou desde 13h. até perto das 16h. Foi um longo, mas emocionante e riquíssimo, desfilar de danças e outras manifestações culturais de louvor à Cruz Jovem que ia partir. Como coroar desse dia cultural e emocionante, foi a simplesmente arrepiante (sobretudo para um europeu como eu, habituado a outras manifestações culturais) recepção da Cruz por parte das gentes Maubisse, ao realizar, no dialecto local, incessantes louvores à cruz acompanhados por uma dança tribal e típica da cultura Maibai (designação da cultura da zona de Maubisse). Foi nesse momento, que me senti como se estivesse perante a origem do Mundo e do Homem. Mais uma vez tive que me segurar para não me emocionar.

Estas minhas simples palavras não retratam quase nada daquilo que se passou no passado fim-de-semana. Eu simplesmente queria deixar a imagem de que em Timor, ao contrario do possa parecer, há mais vida para além dos conflitos em Díli, e das sucessivas confusões eleitorais. O essencial de Timor Leste, não é isso, mas é a sua imensa riqueza cultural ainda virgem e original. È nisso que Timor Leste nos encanta.

Coloco em anexo algumas fotos, que penso podem ser interessantes.

De resto está tudo normal por aqui. Obrigados a todos pelos vossos comentários e emails.

Se quiserem comentar e já não houver espaço aqui no blogue podem sempre mandar um email para miguelmarioneto@gmail.com. Eu prometo escrever sempre que puder.

Um abraço e obrigado a todos.

Miguel Neto

 



publicado por directodetimor às 06:24
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2 comentários:
De Martha Santos a 27 de Abril de 2007 às 09:49
Olá Miguel!!!
É com muita alegria que me apercebo que estás mais entusiamado e feliz com esta tua experiência. Como vês, os pequenos gestos podem marcar as nossas vidas e fazer com que possamos ser pessoas melhores. Acredito que esta experiência veio melhorar muito a tua vida e sobretudo a tua relação com os outros. Fico feliz por isso.
Fica também sabendo que a saudade já aperta, pois já se passaram 6 meses e estamos ansiosos por voltar a ver-te, para ouvir as tuas histórias na casa da nossa amiga Edite.
Muitos Bijinhos
Martha e Valterinho


De Nélson a 4 de Maio de 2007 às 09:47
Caro Miguel,
É sempre com enorme alegria que venho ao teu blog e reflicto nas tuas experiências em Timor.
É de louvar a tua entrega total e a tua disponibilidade para ajudar na causa do Reino.
Continua, e conta com a minha orção.
Nélson


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